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O Ator Invisível, de Yoshi Oida (Via Lettera, 2007)

yoshioida

Tentando encontrar referências (escritas) para trabalhos corporais diversos, tenho adquirido uma série enorme de livros que discorrem sobre ações e elucubrações referentes ao uso do corpo pelo ator. Muitas dessas elucubrações não são elucubrações, é claro. São na verdade indicações derivadas de trabalhos muitas vezes desenvolvidos por anos a fio no trabalho com atores e dançarinos, dentre outros profissionais.
Nesse ímpeto, eu já havia ouvido falar bastante da contribuição oriental ao trabalho corporal do ator, até mesmo pelas referências indicadas sobre a influência de grupos e tradições orientais no trabalho do Grotowski, que é o diretor e encenador que mais me atrai no trabalho que eu estou tentando montar aos poucos. Mas não tinha nenhum livro que expressasse em palavras fáceis de entender o trabalho de atores orientais de forma geral – os trabalhos com as tradições eu só poderei mesmo adentrar indo lá, acredito.
Mas este livrinho do Oida foi uma grata surpresa. Eu já o via frequentemente nas estantes da Livraria Cultura, e até o folheava de vez em quando, sabendo que um dia talvez eu me interessasse por ele. Algo em sua forma simples de falar me afastava, contudo. Se era tão simples, para que comprar o livro? Se tudo era tão intuitivo, por que me dar ao trabalho de ler a respeito? Não sei bem por que razão na verdade eu o comprei. Sei apenas que por ser muito levinho e pequeno e por ser fácil de ler acabei carregando-o por aí tentando ler enquanto ficava pendurado nos ônibus ou enquanto esperava alguém (ou não esperava ninguém).
O que este livrinho tem que os outros não têm? Histórias. Sim, porque o Oida não se preocupa em sistematizar nada (claro, o livro é organizadinho). O que ele propõe é tentar entender por que ele chegou às conclusões que chegou em sua trajetória de ator – ele é associado ao Peter Brook – e algo das razões que fazem o teatro oriental se preocupar com coisas aparentemente irrelevantes como limpar o lugar.
Este aspecto simples, o de limpar o lugar, já me fora ensinado por grupos aqui mesmo de São Paulo. No grupo Redimunho, por exemplo, eles têm essa prática, que faz com que haja uma disciplina interna muito grande no interior do mesmo grupo e que o respeito pelas práticas e pelo trabalho pareça dominar o tempo todo. Lembro-me de quando, no começo de 2012, eu fui fazer uma oficina com eles, e como eles mostravam a forma certa de limpar o chão, de apertar o esfregão e de fazer tudo o mais. Eu nunca soube direito o que achar a respeito. Simplesmente me submeti aos seus ensinamentos.
Mas confesso que algo nessa prática me parecia fora do lugar. Como se essas práticas e atitudes não fossem necessariamente repercutir no trabalho da peça e no trabalho dos atores. Hoje, após ter virado ator – iniciante – e ter alguma – pouquíssima – experiência em dirigir duplas, percebo o quanto esse tipo de prática é determinante. Hoje sei que um diretor precisa de uma coesão e de um comprometimento extremamente fortes para conseguir alcançar ou tentar alcançar desafios dos quais ele e seus atores dependem. Limpar o lugar, limpar o próprio corpo, limpar a mente assumem nesse caso uma importância fundamental. Lembrei-me de relance do trabalho de limpeza quando eu fazia karatê, e tive boas lembranças disso tudo.

Estou lendo o livrinho aos poucos. Ele, como parece que muito do que vem do Oriente, é muito mais profundo do que eu sequer imaginava. Mas sem bobajadas, claro. Esse negócio de ver algo que não existe é típico de nós, ocidentais. Prenhes de problemas, tentando achar misticismo onde só há mesmo prática, uma árdua e necessária prática.

RODRIGO CONTRERA

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